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18-12-2001
O HOMEM
DOS LIVROS DO SERTÃO

Até
agora, são mais de 3.500 títulos publicados. Obra de alguma casa
editora com bala na agulha? Necas. Artes de um sertanejo potiguar,
apaixonado por livros. Vingt-Un Rosado criou uma faculdade, a
biblioteca pública, organizou o museu e toma conta com desvelo de
sua menina dos olhos: a Coleção Mossoroense
Eleuda
de Carvalho
da Redação
Conheci um casal pra lá de interessante. Tudo por causa deste
caderno sobre a caatinga. A parte que me coube neste sertão
cruzaria os caminhos de Mossoró. Liguei para minha comadre Natércia
Campos, a escritora, cuja teia de amizades ultrapassa fronteiras.
Foi Natércia quem me falou de Vingt-Un Rosado e de sua Coleção
Mossoroense, edição particular de livros, em especial títulos
sobre o semi-árido. Chegando lá, encontrei o homem e suas
grandes paixões.
Jerônimo Vingt-Un Rosado Maia, 81 anos bem vividos,
era um menino ainda quando ouviu uma palestra de Câmara Cascudo,
o gênio potiguar. O doutor Cascudinho reforçou no garoto o
bem-querer pelos livros, que ele não largaria jamais. Mas foi em
meados dos anos 40, quando estudava agronomia em Lavras, Minas
Gerais, que Vingt-Un conheceu o amor de sua vida, a mineira criada
em São Paulo, a linda América Fernandes, que o marido apaixonado
não cansa de gabar. Com justeza. Em casa deles, descobri outros
amores de Vingt-Un.
''Esta parede tem fósseis do mesozóico, do período
cretáceo, de cerca de 90 milhões de anos. Eles são exatamente a
prova de que o mar já andou por aqui, ia até perto de Caraúbas.
Estes aqui mais de cima são fósseis mais novos, do cenozóico,
à época em que os grandes animais estavam desaparecendo e o
homem estava chegando na face da Terra''. A parede é da varanda
da casa deles, povoada de filhos, netos e bisnetos, e sede da
Fundação Vingt-Un Rosado. A paleontologia é outro xodó deste
sertanejo cujo pai, amante da língua francesa, resolveu batizar
os 21 filhos com numerais do idioma de Baudelaire.
Um de seus irmãos, Dix-Sept Rosado, foi prefeito de
Mossoró e governador do Estado. Morto em acidente, seu nome
batiza um lugarejo antes chamado São Sebastião. Foi lá, numa
casinha de taipa, que Vingt-Un e América começaram a vida de
casados, em 1947. De família ilustre, Vingt-Un poderia dar-se ao
luxo da vaidade: fundou a Escola Superior de Agronomia de Mossoró,
organizou o museu e a biblioteca pública do município, criou a Coleção
Mossoroense. Nada disso leva seu nome, que ele declinou
para homenagear o de amigos. Mas seis fósseis de moluscos
marinhos ganharam seu sobrenome.
Vingt-Un reuniu seus estudos e vivências com fósseis
em Minhas Memórias da Paleontologia Mossoroense,
seis volumes. É autor também dos livros Delmiro Gouveia e
Mossoró e Minhas Memórias da Batalha da Cultura.
Para saber mais sobre a sua produção editorial, aí vai
o endereço da Fundação Vingt-Un Rosado: av. Jorge Coelho de
Andrade, 25, bairro Presidente Costa e Silva, Mossoró (RN). CEP:
59.625-400, caixa postal 1033.
O POVO - O senhor fundou a Escola
Superior de Agronomia de Mossoró (Esam)...
Vingt-Un
Rosado - Primeiro, nada de senhor! Eu estudei em Lavras,
Minas Gerais. De lá, eu trouxe esta jóia para Mossoró (América
ri). Em 1941, assistindo aula, começava a sonhar: será que um
dia serei capaz de fazer uma escola parecida com essa?, e fiquei
com aquela mania na cabeça. Fiz algumas tentativas infrutíferas,
até que Dix-Huit, presidente do Inda (Instituto Nacional de
Desenvolvimento Agrícola, atual Incra), a primeira vez que veio a
Mossoró, eu digo, meu amigo, não está no tempo da gente fazer
aquela doidice, uma escola de agronomia aqui? Ele ficou calado.
Depois mandou me chamar. - Peça ao prefeito para fazer um decreto
criando uma escola de agronomia. Dou todo o dinheiro necessário
para o começo. Então, a escola foi criada pelo prefeito com
recursos do Inda: 18 de abril de 1967. Depois de dois anos,
Dix-Huit prestou o maior serviço à escola, que foi federalizá-la.
As escolas de agronomia mais antigas do país, a de Viçosa,
Lavras, levaram 30, 40 anos para serem federais. Está aí a Esam,
com 800 alunos e dois cursos, de agronomia e veterinária, e um
mestrado.
OP - Sendo uma escola de agronomia no Nordeste,
sempre houve esta preocupação em trabalhar o ecossistema local,
a caatinga?
VUR
- Poderia ter mais. A grande figura que passou na escola,
nessa área, foi Benedito Vasconcelos Mendes. Benedito começou a
criar animais da caatinga para depois repovoar. Depois, ele criou
uma coisa maravilhosa, o projeto Terra Seca. O
governador da época, apesar de mossoroense, demitiu o Benedito e
fechou a Terra Seca, que era uma esperança para o
Nordeste. Se você vir o currículo dele, vai ficar assombrada.
Para você ter uma idéia da repercussão do seu trabalho,
Benedito foi fazer conferência em duas universidades argentinas e
foi aplaudido de pé. Isso pra um menino de Sobral, criado em
Mossoró... A Esam, como toda universidade pública, atravessa uma
crise, mas já está ressuscitando.
OP - Mudando de assunto, fiquei curiosa quanto ao
seu nome.
VUR
- Vim saber disso depois de velho. Quando meu pai morreu,
eu tinha 10 anos, nunca me lembrei de perguntar porque tínhamos
estes nomes. Nós fundamos aqui na Esam a Academia
Norte-Riograndense de Ciências. E escolhemos como um dos acadêmicos
o professor Aleixo Prattes, que é uma sumidade sul-americana em
farmácia, professor eminente da Universidade do Rio Grande do
Norte, ex-professor da USP. Chamamos esse menino pra ser um dos
acadêmicos, e ele é que me ensinou o porquê. Me disse, seu
Rosado estudava em livros franceses. De tanto estudar em livro
francês, quando ele resolveu povoar o Nordeste, se lembrou dos
nomes que estavam nos livros. Quando cheguei de noite em casa, fui
ver os livros velhos de seu Rosado e lá encontrei: chapitre un,
chapitre deux (capítulo um, capítulo dois)... Agora
só tem vivo este velho aqui.
OP - Sua família é potiguar?
VUR
- Meu pai era de Pombal, na Paraíba, minha mãe, de Catolé
do Rocha, na Paraíba também. Meu avô era português, um homem
de certos recursos, mas na seca de 1877 a família ficou na fossa.
E meu pai foi trabalhar como caixeiro em Catolé do Rocha, na loja
do português Amorim. Um dia chegou uma meninazinha para comprar
uma fita pra sua boneca, era minha tia. Começaram um namorinho,
depois meu pai foi pro Rio de Janeiro, se formou. Quando voltou,
casou com ela. Foram três filhos do primeiro casamento, no
segundo 18. Minha tia, já doente, pediu pra meu pai casar com
minha mãe, minha mãe não simpatizou muito. Mas se casaram e
foram extremamente felizes.
OP - Você foi estudar em Minas, conheceu América,
casou e volta ao Mossoró. É um apego à sua terra?
VUR
- É um apelo irresistível, está no sangue dos Rosado.
Aqui em Mossoró, a tradição é o camarada ficar rico e ir
embora. Bom, nós nunca ficamos ricos mas nunca saímos daqui.
Quando me casei com América, fomos morar numa casa de taipa em São
Sebastião, atual Governador Dix-Sept Rosado. Eu era chefe dos
cassacos (trabalhadores braçais) da pedreira de gesso. De manhã,
ela geralmente pegava um cavalo, ia dar uma volta, e os cassacos
diziam, lá vai a galega do dotô! Fomos felizes lá, e não sabíamos.
América Rosado - Eu sabia!
OP - A prosa muda de novo. Chegando aqui em Mossoró,
fomos ao cemitério, conferir se era verdade a devoção que o
povo tem ao cangaceiro Jararaca. O que você lembra desse episódio
de 1927?
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gin-bottom: 0" align="justify">VUR
- Eu tinha sete anos, estava fugido com a família, a meia
légua daqui. Me lembro ainda quando começou o combate, os tiros.
A resistência de Mossoró foi uma coisa muito bonita, o prefeito
era um matuto inteligente, de coragem, e organizou a resistência
civil. Havia uns gatos-pingados de soldado, a maioria eram civis.
Calcule que, na véspera do ataque, estavam dançando, ninguém
acreditava que Lampião viesse e ele já estava bem pertim. Eles
mataram Colchete no dia do combate, Jararaca e outros foram
feridos, mas Jararaca a polícia pegou, dizem que enterraram vivo.
O povo não aceita este tipo de coisa. Jararaca era um cangaceiro
perverso, tarado, mas matar como mataram o povo não aceita.
Jararaca hoje é santo. No dia 2 de novembro, você pode ir lá
verificar qual o túmulo mais visitado, é o dele. Eu
pergunto, por que não há este culto também a Colchete? Colchete
morreu em condições normais, combatendo. O outro foi cruelmente
assassinado, sem consulta ao prefeito, à cidade, nada. A polícia
pegou, levou pro cemitério de noite, matou. O prefeito só soube
depois do fato, a cidade não participou dessa crueldade.
OP - Voltemos a suas paixões. Como você criou a
biblioteca pública de Mossoró?
VUR
- Em 1948, Dix-Sept estava fazendo seu programa de governo
(para a prefeitura). Perguntei, Dix-Sept, por que você não faz
uma biblioteca pública? É um troço importante, se eu fosse você,
criava. Ele foi eleito, no dia seguinte eu estava na prefeitura,
cobrando. Com quatro dias, ele criou a biblioteca pública, que
ainda existe, tem o nome de Ney Pontes Duarte, um sargento da
Aeronáutica, reformado. Todo dinheirim que pegava, comprava um
livro. Você sabe quantos livros ele deu à biblioteca? Quatro
mil! Por isso, quando falaram em botar o meu nome, disse, não,
tem um nome muito mais importante. No dia 30 de setembro de 1948,
Dix-Sept inaugurou a biblioteca. Daí pra cá teve altos e baixos,
mas não fechou. E vai melhorar.
OP - E o museu local, também nasceu por sua insistência...
VUR
- Logo depois da biblioteca, comecei a organizar o museu,
que está no prédio que era da cadeia pública, construída na
seca de 1877, onde esteve preso Jararaca, onde foi abolida a
escravidão, em 1883. Mossoró sofreu muita influência dos
abolicionistas do Ceará. Este museu já tem algumas seções de
certa importância, por exemplo, a parte de pré-história. Nós tínhamos
reunido cerca de 300 peças, uma doação de um camarada chamado
Jonas de Oliveira Leite, e mais uma compra simbólica de Oswaldo
Lamartine de Faria. Ele nos vendeu por três reais, em moeda
atual, uma coleção riquíssima de fósseis do Seridó. Nossa
coleção era uma das mais importantes do Nordeste.
OP - Como começou sua ligação com a
paleontologia?
VUR
- Eu tinha 21 anos, estava fazendo o primeiro ano de
agronomia em Lavras (MG), e nunca tinha ouvido falar que Mossoró
tivesse fóssil. Em Lavras havia uma mania, os estudantes
escreviam para os ministérios, para as secretarias, pedindo
publicações. Um dia, o Departamento Nacional da Produção
Mineral me mandou um livro desse tamanho. Comecei a folhear, morri
de vergonha. Como é que é, eu com 21 anos não conheço um fóssil
de Mossoró? E aqui neste livro estão bem uns 20 nomes! Fiquei
com vergonha de mim mesmo. Quando voltei, comecei a procurar e vi
que tinha mesmo. Naquela parede que lhe mostrei, tem alguns
milhares de fósseis. No pórtico monumental da Esam tem
equinodermos, um molusco um tanto raro aqui no Nordeste. Muitos
desses fósseis têm importância para a economia porque indicam
existência de jazidas minerais. No museu, eu comecei a juntar uns
fosseizinhos. E começamos a convidar cientistas, aqui, acolá
vinha um, levava para estudar. Um desses fósseis era um quelônio,
que tem uma história curiosa. Vinha um vendedor de macambira, da
serra ao Mossoró. Certa hora, ele notou que a carga estava
desequilibrada, pegou uma pedra e botou. Eu estava organizando o
museu, chegou o camarada disse, tem uma pedra meio esquisita lá
em casa, o senhor quer que eu traga? Era somente o segundo quelônio
mais velho do mundo! Lá na pedreira de gesso, eu já tinha
descoberto que Mossoró tinha fósseis e os cassacos sabiam que eu
gostava de pedra diferente. Então, Manelzinho do Outro Mundo me
disse, dotô, o que é isso aqui? Não sei, parece um fóssil.
Realmente foi Manelzinho do Outro Mundo que descobriu este fóssil
que ganhou meu nome. (No total, são seis fósseis de moluscos que
se chamam ''rosadoi'', boa parte escavada quando Vingt-Un
comandava a retirada de gesso em São Sebastião, então distrito
de Mossoró).
OP - Vingt-Un, me conte sobre a Coleção
Mossoroense (por conta dela, ele foi uma das 500
personalidades entrevistadas por um jornal de São Paulo, durante
as comemorações da descoberta do Brasil, ano passado).
VUR
- Comecei uma série de publicações em 1949, chamada Coleção
Mossoroense, que já chegou a 3.500 títulos. O tema
principal é Mossoró, Rio Grande do Norte, Nordeste, mas
publicamos alguns livros sobre estudos nacionais também. Mas o
tema principal é a bibliografia da seca, são mais de 700 títulos
sobre o assunto. Isto foi dito por Asiz Ab'Saber, o maior geomorfólogo
do Brasil, um dos sábios do nosso país, nosso amigo velho: quem
quiser estudar seca, vá a Mossoró, que a bibliografia mais rica
está lá.
(© O Povo)
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