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Vingt-Un
Rosado: Um homem apaixonado
por livros
PERSONALIDADE
- Pertencente a uma poderosa
família de Mossoró, Vingt
não levou sorte na política
23/06/02
Carlos
de Souza - Especial para
o Viver
Aos
81 anos (no dia 25 de setembro
vai completar 82), o historiador
e paleontólogo Jerônimo Vingt-Un
Rosado Maia já sente uma certa
dificuldade para se locomover
e só gosta de conversar com
o interlocutor bem próximo e
falando de forma pausada e direta
para que ele possa ver a movimentação
dos lábios. É que ele sofre
da falta de audição, um dos
achaques comuns a pessoas de
sua idade. Mas o aspecto saudável,
o sorriso constante entremeando
as frases não denota essa idade.
Em uma das salas de sua ampla
casa no bairro do Alto de São
Manuel, onde armazena parte
do acervo de 3.600 títulos da
Coleção Mossoroense, que foi
criada em 30 de setembro de
1949, funciona a fundação que
leva seu nome.
As
janelas abertas deixam entrar
uma brisa típica do mês de junho,
abafando o usual calor do Oeste,
e ressalta o canto dos pássaros.
É nesse ambiente que ele recebe
os visitantes, sempre pronto
para falar das paixões de sua
vida: os livros, Mossoró e América,
uma socióloga mineira que conheceu
na sua juventude em Lavras e
tem sido sua grande companheira
e incentivadora através dos
anos nessa árdua batalha de
editar livros. E o que é mais
curioso: Ele edita livros para
doar, não para vender.
Para
adquirir um livro, basta ligar
para o número (084) 312 2675.
Membro da mais poderosa e tradicional
família de Mossoró, Vingt-Un
não levou sorte na política,
mas encontrou na cultura, seu
cavalo de batalha para ajudar
sua cidade e sua gente a encontrar
as luzes do conhecimento. Criador
de bibliotecas, museus, fundador
da Escola de Agricultura de
Mossoró — Esam, e grande incentivador
da Universidade Regional do
Rio Grande do Norte, Vingt-Un
fala um pouco aos leitores da
TRIBUNA DO NORTE dessa sua trajetória.
TRIBUNA
DO NORTE - Quando foi que
o senhor começou a se interessar
por livros?
Vingt-Un
Rosado - Essa é uma mania
muita antiga de ginasiano. Padre
Jorge que era diretor do Colégio
Santa Luzia trouxe Cascudo para
fazer umas conferências. Então
Cascudo envenenou todo mundo.
Todo mundo ficou apaixonado
por História. Eu entendi que
deveria escrever a história
de Mossoró. Essa era uma conseqüência
direta dessa iniciativa de padre
Jorge, que foi um grande homem,
cientista, escritor, biólogo.
Isso foi por volta de 1937,
38, mais ou menos...
TN
- Começou então a pesquisa?
Vingt-Un
- Então eu comecei a pesquisar
e aos 20 anos publiquei meu
primeiro livro, não é grande
coisa não, mas o primeiro livro
é como o primeiro amor, não
é? Chama-se Mossoró, é um livro
publicado pela Pongetti, da
Biblioteca de História Norte-Rio-Grandense,
foi uma iniciativa de Aluízio
Alves e José Augusto de Medeiros.
A edição custou o preço de 100
reais (em moeda de agora), Dona
Isaura, minha mãe, foi quem
pagou, a edição de 500 exemplares.
Foi a primeira história da cidade
a ser publicada.
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- Cascudo depois fez umas notas
para a história de Mossoró,
não é?
Vingt-Un
- Sim. Muito tempo depois pedi
a meu irmão que era Prefeito:
"Há uma história de Mossoró
que é muito fraca, que é a de
seu irmão, convide Cascudo para
escrever a história". Então
Vingt convidou Cascudo, ele
veio aqui, entreguei meu arquivo
todo. Ele voltou para Natal
e escreveu um livro magnífico:
Notas e Documentos para a História
de Mossoró. É um livro que já
foram feitas quatro ou cinco
edições, um livro muito importante.
E saiu pela Coleção Mossoroense.
TN
- Aí o senhor partiu para publicar
outros autores?
Vingt-Un
- Depois eu consegui juntar
os escritos de Francisco Fausto
de Souza, o mais antigo historiador
de Mossoró, genealogista, grande
prefeito de Areia Branca. Fez
14 relatórios sobre as administrações
dele, homem de cultura média,
mas grande pesquisador. A terceira
história de Mossoró é a dele.
TN
- O senhor dá preferência ao
autor local?
Vingt-Un
- Não. Tem mais gente de fora
que de Mossoró. Tem gente do
exterior. Tem livros que eram
raridades bibliográficas, por
exemplo, Geologia Elementar,
de John Casper Branner. É um
livro inteiramente voltado para
a geologia de nossa região.
Paulo Fernandes foi procurá-lo
na Biblioteca Nacional. Sabe
quem foi Paulo Fernandes, não?
Um grande homem, um dos homens
que mais entendia de economia
na região. Da biblioteca dele
nós só tínhamos um exemplar
desse livro e a Petrobrás tinha
levado. Pois esse livro eu reeditei
duas vezes. A primeira reedição,
eu pedi ajuda de uma entidade
chamada Aplub. Pois não é que
a Aplub era dirigida por dois
descendentes de potiguares?
Eles me atenderam com muita
alegria e me deram 25 contos.
Então fiz a segunda edição.
A terceira fiz no ano passado.
É um livro clássico sobre geologia
do Brasil, feito por Branner
que foi um grande amigo do Brasil.
Ele foi curiosamente um dos
profetas do petróleo na nossa
região. Em 1922 (eu digo que
foi o canto de cisne dele),
porque ele escreveu no fim de
fevereiro sobre a possibilidade
de petróleo no Brasil, na Bahia,
Mossoró e Maranhão. Ele foi
presidente da Universidade de
Stanford, escreveu uma gramática
portuguesa em inglês, organizou
uma biblioteca de 20 mil volumes
dedicados ao Brasil.
TN
- Quais são os critérios para
a publicação na Coleção Mossoroense?
Vingt-Un
- Eu sou muito criticado por
isso. Todo mundo diz: "Eu
nunca vi um editor publicar
tudo que recebe". Mas é
verdade. Eu só não publico quando
não tenho dinheiro. Dizem que
eu publico também muita plaquete.
Mas olhe, são dois mil livros
publicados contra mil folhetos.
Tem plaquetes que dizem coisas
importantes. Por exemplo, Possibilidades
de Petróleo, de Branner foi
uma plaquete, não é um livro.
Essa mania de publicar tudo
que recebo é porque eu acho
que, nesse meio, vem um Dorian
Jorge Freire, vem um Jaime Hypólito
Dantas, vem um João Batista
Cascudo Rodrigues, não é? Então
vale a pena. Só não publico
quando não tenho dinheiro, o
que é muito freqüente. Vou lhe
contar uma história dos ricos
daqui de Mossoró. Minha esposa
estava fazendo um mutirão, arrecadando
a partir de 10 reais. Então
um homem, que é talvez um dos
mais ricos de Mossoró disse,
"Coleção Mossoroense? Nunca
ouvi falar nisso não. Como é
que você vai empregar esses
10 reais?" Ela desligou
o telefone.
TN
- Fale mais sobre a pesquisa
em Mossoró.
Vingt-Un
- Aqui trabalha comigo Marta
Câmara, que é uma moça de muito
valor, uma artista plástica
que me dá assessoria por algumas
horas durante a semana e tem
mais dois colaboradores que
cuidam da digitação e pesquisa.
A estrutura é muito pobre. Nós
temos uma figura muito curiosa
aqui em Mossoró que é Raimundo
Soares de Brito. Para mim é
o maior historiador da região.
Ele só tem um defeito, que é
o defeito da perfeição. É um
pesquisador de mão cheia e curiosamente
vem de Caraúbas que é a terra
dos memorialistas, uma cidade
que tem uma dúzia de memorialistas,
quase todos inéditos. Pois bem,
Mossoró tem a honra de contar
no seu quadro de professores
a maior autoridade brasileira
em semi-árido, chama-se Benedito
Vasconcelos Mendes. Foi professor
da Esam, aposentou-se, está
na URRN; fez conferência na
Argentina, foi saudado de pé.
TN
- Como o senhor se definiria
depois de tantas conquistas
na área do saber?
Vingt-Un
- Eu não me considero escritor,
eu sou organizador de livros.
Escritor é quem escreve, eu
não sei escrever, agora organizar
eu sei.
Da
paixão pela história à paleontologia
Apesar
de toda a humildade ao se referir
à sua importância para a cultura
do Rio Grande do Norte, Vingt-Un
Rosado acumula uma experiência
de pesquisador que começou com
uma paixão pela História e foi
desaguar num profundo interesse
pela Paleontologia. Através
de suas investidas nessa área
do conhecimento, Mossoró já
conta com uma considerável quantidade
de fósseis em seu museu e muitos
ainda aguardando catalogação
nos depósitos da Esam.
Quando
estudava na escola de agronomia
de Lavras, em Minas Gerais,
ainda na juventude, Vingt-Un
teve a primeira informação sobre
fósseis. "Eu nunca tinha
ouvido falar que em Mossoró
tinha um fóssil. Nunca, nenhum
professor, ninguém sabia disso.
Nós recebíamos livros e folhetos
da Secretaria, um dia recebi
um livro deste tamanho, Fósseis
Terciários do Brasil. Eu vi
nomes de dez lugares de Mossoró,
por exemplo, um fóssil chamado
mossoroensis, santi sebastiani,
upanemensis, camuripimica, e
assim por diante... então fiquei
orgulhoso e humilhado. Como
é que eu sou tão ignorante,
que com 20 anos, eu não soube
que minha terra tinha fósseis?
Pois tinha e já tinham sido
estudados por uma americana,
Carlota Joaquina Malreen".
Quando voltou a Mossoró, Vingt-Un
começou a procurar por esses
fósseis. E encontrou. Ele trouxe
então para a cidade um paleontólogo
do Museu Nacional para pesquisar
nas localidades de São Sebastião,
Gangorrinha e Soledade. A partir
daí, conseguiu juntar um importante
acervo de material fóssil que
aguarda um reconhecimento maior.
Na
ânsia de preservar as fontes
de saber da região, Vingt-Un
Rosado acabou descobrindo, em
1982, em Carnaúba dos Dantas,
a presença no Rio Grande do
Norte do cientista Rômulo Argentière.
Um homem que vinha há 40 anos
trabalhando no livro O Ciclo
d’Água no Nordeste Brasileiro,
recebeu correspondência do físico
Albert Einstein, era discípulo
dos Curie e tinha uma vasta
obra publicada. Entre os vários
títulos de trabalhos científicos
publicados, consta uma tradução
alemão do livro A Sabedoria
da Vida, de Schopenhauer, pela
editora Cultura Moderna, São
Paulo, 1938; A Vida no Universo,
do russo, de Fessenkov Oparin,
pela editora Fulgor, São Paulo,
1961; A Ciência Avança, do inglês,
pela Companhia Editora Nacional,
São Paulo, 1947. Este homem
de vida curiosa, que aguarda
uma boa biografia, tem sua correspondência
catalogada e publicada pela
Coleção Mossoroense. "Um
cientista que passou fome no
Rio Grande do Norte. Botei o
nome dele em uma ponte aqui
de Mossoró. Sua família havia
vendido, à sua revelia, tudo
que ele tinha. Ligou-se a uma
moça que eu chamo a heroína
de Carnaúba dos Dantas, chama-se
Marinês e foi quem cuidou dele
até seus últimos momentos. Ele
morreu de câncer no esôfago".
Vingt-Un
conta como foi os últimos dias
do cientista. "Eu fui buscá-lo
para fazer a cirurgia em Mossoró,
não deu certo. Levei para Dr.
Ernani Rosado, para uma cirurgia
que durou 6 horas. Eu tinha,
juntamente com Frederico Rosado,
pleiteado a Garibaldi uma pensão
especial de 10 salários mínimos.
Rômulo estava no hospital internado
e Garibaldi me comunicou, já
assinei o ato, dei a pensão
a seu amigo. Eu pensei: Rômulo
está na UTI, a vida toda ele
esperou esse decreto, a Assembléia
votou, José Agripino engavetou,
Garibaldi assinou. Se eu for
dizer agora, esse homem morre
hoje de noite. Não morreu de
noite, mas morreu na manhã seguinte"
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