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Vingt-un
Rosado: figura de respeito em
Mossoró
VINGT-UN:
"Editar livros é minha
cachaça, meu vício"
22/11/00
Aos
80 anos anos de idade, o engenheiro
agrônomo e editor Jerônimo Vingt-un
Rosado Maia é a figura mais
respeitada de Mossoró. Costumam
denominá-lo de um "poço"
de cultura. Com problema de
audição, ele não se comunica
ao telefone, mas pessoalmente
se mostra amável, simpático
e prestativo. Passa a maior
parte do tempo dentro de sua
biblioteca, remoendo os escritos
publicados na Coleção Mossoroense,
que publicou desde 1948 livros,
folhetos e artigos que já ultrapassam
a marca dos 3.000 títulos. Ele
cursou engenharia agrônoma na
escola de Lavras, onde conheceu
sua esposa, a socióloga América,
hoje com 78 anos de idade. O
casal teve cinco filhos, dos
quais, resultaram 12 netos e
dois bisnetos.
Incentivo?
Vingt-un
Rosado — Em 1948, meu irmão
Dix-sept Rosado estava se candidatando
a prefeito. Nós integrávamos
o quadro da UDN, e vínhamos
perdendo todas as eleições.
Os amigos achavam que Dix-sept
poderia disputar e ganhar a
eleição. Ele só era político
para ajudar os amigos, nunca
foi candidato a nada. Era líder
no comércio e na indústria,
não era homem culto, ele tinha
feito o ginásio por insistência
da família. Mas era muito inteligente
e sensível aos problemas do
povo. Então ele tratou de fazer
um programa de governo. Eu lhe
propus a criação de uma biblioteca
pública. Ele aceitou imediatamente.
Promessa?
VR
— Em cinco dias de governo ele
criou a biblioteca e entregou
para um grupo formado por uma
meia dúzia de pessoas, das quais
nenhum de nós era biblioteconomista.
Dix-sept nos visitava todos
quase todos os dias. Paralelamente
à biblioteca, comecei a organizar
o Museu Lauro da Escóssia. A
biblioteca, inaugurada em 30
de setembro de 48, foi o ventre
gerador de muitos produtos.
Um deles deles foi o Boletim
Mensal, que era mimeografado
e persistiu até o número 153.
Tinha um pouco de história e
notícias de Mossoró e por último
as atas da Câmara. O segundo
foi o curso de antropologia
cultural, cuja aula de abertura
foi ministrada por ninguém menos
do que Câmara Cascudo
Museu?
VR
— Nós começamos o Museu Lauro
da Escóssia Filho com 200 peças
de arqueologia. Conseguimos
300 peças líticas, e naquele
tempo, era um marco. Hoje outras
instituições também têm. Tínhamos
a coleção mais importante do
Nordeste. Eu tinha 21 anos e
nunca tinha visto um fóssil,
fui estudar em Lavras e voltei
louco para procurar fósseis.
Arqueologia e paleontologia
são as áreas de interesse do
Museu. Fui um dos primeiros
pesquisadores do Lagedo de Soledade.
Coleção?
VR
— As duas bibliotecas públicas
infantis do RN nasceram em Mossoró,
na Vila de Sebastianópolis,
hoje conhecida como município
de Dix-sept Rosado, e outra
aqui na cidade. A Coleção Mossoroense
começou em 1949, com a publicação
de folhetos de grande formato,
era a Série A. Em 54, começamos
a Série C, de livros. Até hoje,
publicamos cerca de 1.200 livros.
A coleção nasceu sob o patrocínio
da prefeitura, e depois, na
segunda fase, a de maior produção,
passou à responsabilidade da
ESAM (Escola Superior de Agricultura
de Mossoró) e da Fundação Guimarães
Duque. EM 95, o diretor da escola
achou que agronomia não tinha
anda a ver com cultura e extinguiu
a parceria. Com isso, os amigos
incentivaram a criação da Fundação
Vingt-un Rosado.
Fundação?
VR
— Os recursos para a Fundação
vêm de amigos, que doam R$ 10
ou R$ 20 por mês, da secretaria
municipal de cultura, e de algumas
outras instituições que fazem
doações esporádicas. Nos dedicamos
à publicação de títulos, entre
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folhetos, livros e boletins.
Assim produzimos a maior bibliografia
sobre a seca que existe no País.
Estamos pretendendo reeditar
As Sesmarias do RN. Os temas
abordados pela Coleção incluem
prioritariamente Mossoró, o
Estado do Rn e a região Nordeste,
embora também abordem interesses
nacionais.
Critérios?
VR
— Muitas pessoas criticam o
trabalho de meio século ,dizendo
que dou oportunidade para todo
mundo, e em parte têm razão.
Muitos autores dos títulos da
Coleção Mossoroense foram lançados
por nós, à exemplo do talentoso
jornalista Dorian Jorge Freire,
e tudo isso contando com o apoio
de alguns poucos. Cultura é
um negócio de doido. O Estado
tem secretaria de cultura mas
não recebemos sequer uma resma
de papel. É muito difícil fazer
cultura. Às vezes eu pego até
dinheiro emprestado.
Leitores?
VR
— Realizamos anualmente as Noites
da Cultura e numa noite, em
74, lançamos 400 títulos. No
ano seguinte ao que fomos expulsos
da Esam, publicamos sete títulos.
Poucas pessoas compram livros,
os lançamentos são um fracasso
em termos de vendagem. Na nossa
Fundação, criamos o Projeto
Poesia na Escola, para lançar
e incentivara produção literária
entre alunos do primeiro grau.
Acreditamos que assim estejamos
formando novos leitores. Gostaria
de reverter esse quadro humilhante
dos lançamentos, em que não
aparece ninguém para comprar.
Mossoró?
VR
— Acho que a Prefeitura de Mossoró
está fazendo boas coisas para
a cidade, como a Estação das
Artes, por exemplo. Tenho o
maior orgulho de ser mossoroense.
Nesses meus 80 anos, posso dizer
que menos de dez eu vivi fora
daqui. Adoro ler as coisas que
escrevem sobre Mossoró. Minha
cachaça é publicar livros, meu
maior vício.
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